RECICLAR É O MELHOR REMÉDIO
por Daniel Santos, Eduardo Vasconcelos, Mirtila Facó, Natália Macedo e Stephanie Eilert
Segundo a revista americana trimestral Foreing Policy, de setembro/outubro, o mundo produz dois bilhões de toneladas de lixo por ano. Embora tenha atingido níveis históricos, a reciclagem mundial ainda não é suficiente para conter o crescente ritmo de produção de lixo de gigantes em desenvolvimento, como a China e a Índia. O grande produtor de lixo, hoje, é o dragão chinês. As projeções indicam que o país vai passar de 150 milhões de toneladas de lixo por ano, em 2000, para 500 milhões de toneladas até 2030.
A publicação ainda cita o Japão, a França, os Estados Unidos e o Brasil como os países que mais reciclam no mundo. Dentre eles, o arquipélago japonês lidera o reaproveitamento de garrafas plásticas, papel e vidro, mas os números também são animadores para o Brasil. As estatísticas nos apontam como o maior responsável pela reciclagem de alumínio da terra, devido ao trabalho ativo de mais de 500 mil coletores de lixo de rua, a maioria latinhas de refrigerante e cerveja. Estima-se que, ao redor do mundo, mais de quinze milhões de pessoas vivem da coleta e reciclagem de lixo.
A população brasileira gera diariamente cerca de 126 mil toneladas de lixo de consumo, excluindo dejetos industriais e empresariais. Há anos, o lixo é um dos problemas mais graves enfrentados pela população mundial e é um dos grandes entraves quando se refere a aquecimento global, já que é uma das atividades humanas que mais desequilibra o ambiente, porém há muito o que se fazer para minimizar os danos e evitar o esgotamento dos recursos naturais.
SUPERMERCADOS APOSTAM NA COLETA SELETIVA
Nos últimos anos a coleta seletiva foi uma das ações de incentivo a responsabilidade social mais aplicada pelos supermercados de Fortaleza. É uma prática de sustentabilidade que está em alta e que, com a ajuda da população, torna a cidade mais limpa.
A rede Pão de Açúcar é pioneira no serviço de estações de reciclagem nos estacionamentos de seus supermercados. Desde agosto de 2005, o Grupo trabalha em parceria com a multinacional Unilever e a Cooperativa de Pré-Beneficiamento de Materiais Recicláveis do Ceará (Coopremarce). Doze lojas da rede de supermercados Pão de Açúcar têm estações de reciclagem que recebem papel, plástico, vidro e metais. A cada dois dias, o volume é retirado e repassado para a Coopremarce, que disponibiliza voluntários para orientar os clientes e captar novos colaboradores. Além das cooperativas de catadores, o material reciclável vai para Instituições de caridade.
O mercadinho São Luiz também oferece contêineres de coleta seletiva há dois anos. O subgerente Régis Fernandes explica como funciona o processo de coleta: “Nós mesmos retiramos o volume das ilhas e enviamos, como em todas as demais lojas, para a Central de Abastecimento. No depósito, todo o material é amarrado, prensado e posto para venda. Embora a divulgação da coleta seletiva não seja das melhores, muitas pessoas colaboram e, por isso, é necessário fazer a retirada do lixo diariamente”. Segundo Régis, a redução do lixo do supermercado reduziu 50% desde o início do projeto. O papel é o material mais coletado.
A Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam) implantou a coleta no Mercado São Sebastião, no início deste ano. Como é um mercado que produz uma grande quantidade de lixo, os zeladores e os comerciantes estão dando continuidade ao processo de triagem. Eles receberem um treinamento específico para saberem usar o equipamento corretamente. Dessa forma, grande parte do que antes ia para o aterro do Jangurussu ser incinerado, hoje é reutilizado e gera benefícios para a população.
COSTUME DE CASA VAI AO POSTO DE COLETA
As tentativas de desacelerar o descarte de material já conquistaram famílias, que aderiram processo pela consciência ambiental. Adotar a coleta seletiva de lixo em casa é um das etapas para quem quer contribuir com o meio-ambiente. A farmacêutica, Ivolina Macedo, sempre procurou ter um estilo de vida saudável. Adepta de esportes e da boa alimentação, a preocupação com o meio-ambiente sempre fez parte da sua vida e realizar a coleta é apenas conseqüência da consciência.
Há quase dois anos, ela foi impulsionada pelo projeto Ecoelce, que consiste em trocar o lixo por bônus em energia. Ivolina disse que ficou sabendo do projeto e começou a fazer a coleta em sua casa com o intuito de fazer parte do programa, mas nunca chegou a se cadastrar. “Separei uma vez e não deu certo o cadastro, mas fiquei com peso na consciência de misturá-los com o lixo comum e resolvi procurar postos de coleta próximos a minha casa. Desde então nunca mais parei.”
Em sua casa,moram apenas ela e o marido, mas o lixo produzido pelo casal é suficiente para levar aos postos de coleta aproximadamente duas vezes por semana. Ela alerta que é preciso levar todo o material limpo ao posto de coleta. Além de fazer a triagem do lixo produzido em casa, atualmente, Ivolina procura comprar produtos com o selo verde, que asseguram que não foram produzidos à custa de um bem natural degradado. A dona-de-casa diz que seu próximo passo é utilizar a “ecobag” (sacolas/embalagens ecológicas) para fazer compras e também implementar a coleta em seu condomínio.
Ela e o marido já tentaram conversar sobre o assunto nas reuniões, mas diz que as pessoas ainda não são muito abertas para encarar essa mudança: “Ninguém se interessa, sempre fica para depois.” E acrescenta: “Em uma sociedade em que as pessoas jogam lixo pela janela do carro, o que mais se pode esperar? Enquanto isso, vou fazendo a minha parte, se você fizesse a sua…”
DO ÓLEO AO SABÃO
Quando se prepara uma refeição na cozinha, as pessoas nem imaginam que estão lidando diretamente com um dos componentes mais prejudiciais ao meio-ambiente. Aparentemente inofensivo, o óleo de cozinha pode causar danos tanto na tubulação das residências como à rede de abastecimento de água das cidades. Quando jogado na pia, vai para a rede de esgoto e, quando é a causa de entupimentos, há a necessidade do uso de produtos químicos para a solução do problema e esse material tóxico é levado para as estações de tratamento, junto com a água que se utiliza. Embora, em Fortaleza, não haja uma campanha muito forte sobre o quesito reciclagem, existem iniciativas pontuais que já estão fazendo a diferença. Faustino é um dos exemplos de cidadãos que aderiram à causa gratuitamente, com o único objetivo de fazer a sua parte pelo meio-ambiente. De quebra, descobriu uma forma de economizar dinheiro.
Em seu restaurante, desde 1991, Faustino recicla óleo de cozinha queimado, que é todo óleo que já foi usado no preparo do alimentos, de uma maneira artesanal e fácil de ser realizada. Ele não só transforma o óleo em sabão, como também o utiliza para lavar louças do restaurante. Além disso, ele também recebe óleo queimado de amigos e clientes, que o ajudam a desenvolver esse trabalho de consciência ambiental. Além do óleo, ele também reaproveita restos de comida e cascas de frutas para alimentar os porcos e as galinhas de seu sítio, onde o empresário cultiva boa parte dos produtos que utiliza em seu restaurante.
A sua consciência ecológica atua também na tentativa de reaproveitar outros materiais, por isso, é adepto da triagem de metais, como latinhas de refrigerante, e todo o material arrecadado é entregue a um coletor de lixo de rua. O plástico também tem utilidade. Faustino também reutiliza as garrafas de refrigerante e água tônica, e após serem devidamente esterilizadas, são úteis para engarrafar a cajuína que produz e, como se não bastasse, ele ainda reutiliza a água utilizada na esterilização das louças para lavar a calçada do restaurante.
LIXO VIRA ARTE
Nem tudo o que é lixo vira estatística de poluição ambiental. Algumas idéias criativas e um pouco de habilidade manual podem transformar em decoração o que é considerado sem utilidade. O mecânico e artesão José Alves da Silva, 42, afirma que lugar de sucata não é no ferro velho. Para ele, quase todas as peças encontradas nos ferros velhos de Fortaleza podem virar decoração.
Partes de automóveis, bicicletas quebradas, ferramentas, ferros retorcidos, pedaços de televisores e computadores e pneus sem a mínima condição de uso são os principais materiais utilizados pelo artista na confecção de seus artigos. Segundo afirma, o talento foi descoberto ainda muito cedo e de forma completamente natural. “Descobri desde moço que tinha o dom para o negócio. Para esse trabalho utilizo apenas minha imaginação que, graças a Deus, até hoje, vem me servindo de sustento”, conta José.
Casado e com dois filhos, um dos quais com paralisia cerebral, o artesão garante que consegue ganhar um bom dinheiro com a feitura dos objetos. “As pessoas passam por aqui e gostam do que vêem. Os clientes acham tudo muito diferente, muito criativo”, diz.
Ao visitar o ateliê, localizado em sua própria residência e também oficina, é possível se deparar com bonecos de todos os tamanhos e tipos; bicicletas em formato de animais – entre elas uma das mais queridas: a bicicabra; além de cobras, jacarés, passarinhos, corujas e, até mesmo, o mosquito da dengue, todos eles feitos com ferro e pintados à mão.
“Tenho muito orgulho do que eu faço e, além de tudo, tenho muito amor pelo que produzo”, revela José Alves.
O processo de produção começa com a aquisição da matéria prima, a maior parte dela comprada em sucatas a preços bem populares. O segundo e mais importante passo é colocar a criatividade a prova e começar a produção. “Posso até demorar na hora de pensar o que fazer com as coisas, no entanto, depois que a idéia vem à cabeça, tudo é feito com a máxima velocidade. Sou rápido no que faço e, no final, tudo fica bonito”, diz.
Com partes do motor de um carro e peças de uma antiga estante, o artista constrói artigos de decoração que encantam pessoas de todas as idades. De acordo com ele, porém, são as crianças que mais curiosidade e apreço têm pelos objetos prontos. “Elas são capazes de ficar horas e horas tentando descobrir como determinado aviãozinho ou como o boneco foram feitos. Os pais não ficam atrás, é claro, também são curiosos e adoram saber o que foi usado na construção”, brinca Alves.
As encomendas não param. Além de exportar para diversas cidades do Brasil, a produção também já conquistou destinos internacionais, em países como a Itália, a França, a Espanha e Portugal. O trabalho artesanal acontece o ano inteiro, mas as festas comemorativas desafiam ainda mais a sua criatividade. Eventos como o Natal, São João e Carnaval são os períodos em que mais ele produz. “O São João desse ano foi uma festa, já que tive a oportunidade de decorar com meus bonecos diversas barraquinhas em vários locais de Fortaleza. E o carnaval vem aí não é?!”, assevera Alves.


Escrito por blogjorstephanie 






